As samambaias que quebraram as regras
A filogenética molecular mostrou que o que chamamos de "samambaia" é uma categoria muito mais fluida do que pensávamos.
No ensaio anterior sobre o "paradoxo da samambaia", discutimos como essas plantas sobreviveram 400 milhões de anos relativamente inalteradas. Mas a filogenética moderna — o uso de DNA para reconstruir árvores evolutivas — revelou que essa narrativa de estase é mais complicada do que parecia.
A árvore da vida se redesenha
Até o advento da filogenética molecular nas décadas de 1990 e 2000, a classificação das plantas vasculares sem sementes (pteridófitas) baseava-se principalmente em morfologia. As samambaias eram divididas em leptosporangiadas (esporângios pequenos, parede fina, com anel de deiscência) e eusporangiadas (esporângios grandes, parede espessa).
Estudos de filogenética molecular, especialmente do grupo Pteridophyte Phylogeny Group (PPG), mostraram que várias linhagens antes classificadas como "samambaias" na verdade não formam um grupo monofilético — ou seja, nem todas compartilham um ancestral exclusivo. As licófitas (Lycopodiaceae, Selaginellaceae), por exemplo, divergiram das demais plantas vasculares muito antes das samambaias verdadeiras.
Horsetails são samambaias?
Um dos achados mais surpreendentes da filogenética moderna foi a colocação de Equisetum (cavalinha) dentro das samambaias leptosporangiadas. Morfologicamente, Equisetum parece um grupo à parte — com caules articulados, folhas reduzidas a escamas e esporângios em estróbilos terminais. Mas dados moleculares mostram que Equisetum é um grupo irmão das marattiáceas e, portanto, uma linhagem derivada dentro das samambaias, não um grupo primitivo.
Poliploidia como motor
A poliploidia — duplicação do genoma — é excepcionalmente comum em samambaias. Enquanto a maioria das plantas com flores é diploide (2n), muitas samambaias são tetraploides (4n), hexaploides (6n) ou até octoploides (8n). O gênero Cystopteris, por exemplo, inclui indivíduos com até 8 conjuntos de cromossomos.
Essa poliploidia recorrente cria um problema classificatório: espécies morfologicamente idênticas podem ter ploidias diferentes e ser reprodutivamente isoladas. É uma das razões pelas quais a taxonomia de samambaias é considerada uma das mais difíceis da botânica.
O que mudou
Resumindo: a "samambaia" clássica não é uma categoria natural. As leptosporangiadas (que incluem cavalinhas) formam um grupo monofilético. As licófitas são um ramo separado que divergiu há mais de 400 milhões de anos. E as "samambaias primitivas" (Marattiales, Ophioglossales) são posições basais, não ancestrais, dentro da árvore leptosporangiada.
PPG I (2016)
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