Canto Botânico
No 03 · Evolucao Vegetal

O paradoxo da samambaia

400 milhoes de anos de existencia e uma morfologia que mal mudou.

As samambaias sao um paradoxo evolutivo. Seu registro fossil comeca no Devoniano, ha cerca de 390 milhoes de anos, e linhagens modernas como Cyatheaceae (samambaias arborescentes) apresentam morfologia quase identica a exemplares do Carbonifero. Diante de organismos que mudaram radicalmente -- dinossauros em aves, peixes em tetrápodes --, a estabilidade das pteridofitas parece desafiar a logica da selecao natural.

Esse fenomeno e conhecido como evolutionary stasis (estase evolutiva), e nao significa que as samambaias pararam de evoluir. Significa que a pressao seletiva tem mantido o fenótipo estavel enquanto o genótipo continua mudando. Dados de filogenetica molecular confirmam que taxons morfologicamente conservadores apresentam taxas de substituicao nucleotidica comparaveis as de grupos com alta diversidade morfologica.

O Carbonifero e a era das samambaias gigantes

No Carbonifero (359-299 milhoes de anos atras), pteridofitas arborescentes como Lepidodendron, Sigillaria e Calamites dominavam florestas tropicais pantanosas. Essas arvores atingiam 30 metros de altura e formavam a maior parte da biomassa terrestre do planeta. Quando morriam e caíam nas aguas acidas e anaerobias dos pântanos, a materia organica nao se decompunha completamente. O resultado acumulado, ao longo de dezenas de milhoes de anos, foram as camadas de carvao mineral que alimentaram a Revolucao Industrial.

A maior parte dessas linhagens gigantes foi extinta na extincao do Permiano-Triassico (252 Ma), o evento mais catastrófico da historia da vida. As samambaias modernas (classe Polypodiopsida) sao descendentes de linhagens que sobreviveram e, surpreendentemente, voltaram a dominar brevemente apos a extincao do Cretaceo-Paleogeno (66 Ma), quando fragmentos de samambaias proliferaram em solos enriquecidos com cinzas nos primeiros milhares de anos apos o impacto do asteroide.

Por que a estase morfologica?

Varias hipoteses explicam a conservacao morfologica das samambaias:

Desenvolvimento constrito. A arquitetura básica das samambaias -- frondes pinadas, esporangios em soros, ciclo de vida com alternancia de geracoes heteromorfica -- e determinada por uma rede genetica de desenvolvimento profundamente integrada. Modificacoes que alteram um componente tendem a desestabilizar o todo. Esse fenomeno, chamado developmental constraint, limita o espaco de fenótipos viáveis.

Estabilidade de nicho. Samambaias ocupam predominantemente o sub-bosque de florestas tropicais e temperadas, um habitat relativamente constante em termos de pressoes seletivas ao longo de escalas geologicas. A combinacao de luz difusa, alta umidade e solos organicos mudou pouco em centenas de milhoes de anos. Quando o nicho e estavel, a selecao favorece a manutencao do status quo.

Adaptacao generalista. Ao contrario de plantas com flor, que frequentemente coevoluem com polinizadores especificos, samambaias dependem de esporos dispersos pelo vento. Essa estrategia reprodutiva generalista nao gera a pressao para especializacao morfologica floral que impulsionou a radiacao das angiospermas.

Evolucao molecular silenciosa

A estase morfologica esconde dinamismo genetico. Analises filogenomicas de samambaias leptosporangiadas revelam taxas de divergencia molecular comparaveis as de angiospermas. Familias como Polypodiaceae e Aspleniaceae contem centenas de especies com diversificacao recente no Mioceno, indicando radiacao adaptativa. A diferenciacao ocorreu sobretudo em caracteres ecologicos (tolerancia a seca, epifitismo, capacidade de colonizar solos perturbados) mais do que em macromorfologia visível.

Outro aspecto surpreendente e a ocorrencia de hibridizacao e poliploidia em samambaias, frequente o suficiente para gerar especies inteiramente novas sem mudanca morfologica obvia. Pteris, por exemplo, possui multiplos complexos de especies apomíticas derivados de hibridizacao, nos quais a diversidade genetica e alta mas a diversidade fenotipica e baixa.

O paradoxo da samambaia e, no fundo, uma licao sobre os limites da nossa percepcao. O que chamamos de "stasis" e frequentemente estabilidade na dimensao que conseguimos observar, alimentada por mudancas em dimensoes invisiveis. As samambaias nao sao reliquias estagnadas -- sao estrategias evolutivas que funcionam ha 400 milhoes de anos, com a discriçao que so o sucesso prolongado permite.

Referências

Schneider H, Schuettpelz E, Pryer KM, Cranfill R, Magallon S, Lupia R (2004)

Ferns phylogeny inferred from 400 leptosporangiate species and three plastid genes. Nature, 428:553-557. DOI: 10.1038/nature02403

Testo WL, Sundue MA (2016)

A 4000-species dataset provides new insight into the evolution of ferns. Molecular Phylogenetics and Evolution, 105:200-211. DOI: 10.1016/j.ympev.2016.09.003

Pryer KM, Schuettpelz E, Wolf PG, Schneider H, Smith AR, Cranfill R (2004)

Phylogeny and evolution of ferns (monilophytes) with a focus on the early leptosporangiate divergences. American Journal of Botany, 91(10):1582-1598. DOI: 10.3732/ajb.91.10.1582

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