Fito-remediação — plantas que limpam o solo e a água
Chumbo, arsênio, petróleo — algumas plantas absorvem o que mataria outras espécies.
Fito-remediação é o uso de plantas para remover, degradar ou imobilizar contaminantes do solo, da água e do ar. O conceito é antigo, mas a aplicação científica sistemática começou nos anos 1990, quando pesquisadores descobriram que certas espécies hiperacumuladoras podiam concentrar metais pesados em suas folhas em concentrações centenas de vezes superiores às encontradas no solo.
Como funciona
Existem vários mecanismos de fito-remediação. Na fitoextração, a planta absorve o contaminante via raízes e o transloca para a parte aérea, onde pode ser colhida e processada. Na fitoestabilização, as raízes imobilizam o contaminante no solo, reduzindo sua disponibilidade biológica. Na rizodegradação, exsudatos radiculares estimulam microrganismos que degradam compostos orgânicos como hidrocarbonetos.
A fitoextração é a mais dramática: espécies como Thlaspi caerulescens (agora Noccaea caerulescens) podem acumular até 30.000 ppm de zinco nas folhas — níveis que seriam letais para a maioria das plantas. Alyssum lesbiacum hiperacumula níquel. Pteris vittata, a samambaia de arsênio, acumula esse metaloide em concentrações até 2.3% do peso seco das frondes.
Aplicações reais
O caso mais documentado de fito-remediação em larga escala ocorreu em Chernobyl, onde girassóis foram cultivados em solo contaminado por césio-137 e estrôncio-90 para reduzir a radioatividade. Na França, experimentos com Brassica juncea demonstraram extração efetiva de chumbo e cádmio em solos industriais.
No Brasil, estudos têm investigado o uso de Eichhornia crassipes (aguapé) para remoção de metais pesados em efluentes e de Brachiaria decumbens para imobilizar arsênio em áreas mineradoras.
Limitações
A fito-remediação é relativamente lenta comparada a métodos mecânicos de limpeza de solo. Depende de clima, profundidade do contaminante, e da capacidade da planta de crescer no solo contaminado. Além disso, a planta precisa ser colhida e descartada ou processada — o contaminante não desaparece, é transferido da matriz ambiental para a biomassa vegetal.
A fitomining, uma extensão da fitoextração, propõe recuperar metais valiosos (níquel, ouro) a partir de plantas hiperacumuladoras. A viabilidade econômica ainda é limitada, mas testes na Nova Caledônia mostram potencial para recuperação de níquel.
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Phytoremediation: a novel strategy for the removal of toxic metals from the environment using plants. Nature Biotechnology, 13(5), 468-474. DOI: 10.1038/nbt0595-468
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