O Brasil se chama Brasil por causa de uma arvore. Caesalpinia echinata, o pau-brasil, era tao valiosa nos primeiros seculos da colonizacao que a cor vermelha de seu lenho — usada para tingir tecidos na Europa — batizou o proprio territorio. Nao e o unico caso de uma arvore que definiu a identidade nacional: o jequitiba foi declarado arvore simbolica de Sao Paulo, o ipé-amarelo e o simbolo floral do Brasil. Mas alem da simbologia, essas arvores sao organismos extraordinarios com historias de vida que se medem em seculos.

Jequitiba — os gigantes da Mata Atlantica

O genero Cariniana (família Lecythidaceae) inclui tres especies conhecidas como jequitiba no Brasil: C. estrellensis (jequitiba-rosa), C. legalis (jequitiba-branco) e C. pyriformis (jequitiba-vermelho, da Amazonia). O jequitiba-branco e a especie mais longeva e mais volumosa — pode atingir 50 metros de altura, 3 metros de diametro e viver mais de 3.000 anos. E uma das arvores tropicais mais antigas ja datadas por metodos dendrocronologicos.

O jequitiba e uma arvore emergente da Mata Atlantica: sua copa se eleva acima do dossel, enquanto o fuste (tronco) e liso, reto e desprovido de galhos ate grande altura — uma adaptacao para competir por luz em florestas densas. Sua madeira e leve e de baixa durabilidade, o que paradoxalmente a protegeu da explotacao intensiva: madeireiros preferiam especies mais densas.

A arvore mais famosa e o Jequitiba Rosa de Santa Rita do Passa Quatro, em Sao Paulo, com 42 metros de altura e circunferencia de mais de 12 metros na base. Estima-se que tenha entre 2.000 e 3.000 anos — estava ali quando os Tupinamba habitavam a regiao, estava ali quando a bandeira de Martim Afonso de Sousa foi hasteada no litoral paulista em 1532.

"O pau-brasil era tao valioso que batizou o proprio territorio. O Brasil se chama Brasil por causa de uma arvore."

Pau-brasil — a arvore que deu nome ao pais

Caesalpinia echinata (familia Fabaceae, subfamilia Caesalpinioideae) e nativa da Mata Atlantica litoranea, do Rio Grande do Norte ao Rio de Janeiro. Seu lenho contem brasilina, um corante vermelho-intenso que era o principal produto de exportacao da colonia portuguesa nos primeiros 300 anos — antes do acucar e do cafe. A madeira era tao valiosa que os portugueses estabeleceram monopólio sobre sua exploracao (o "estanco do pau-brasil") e os franceses a contrabandeavam sistematicamente.

O nome "brasil" vem do portugues "brasa" — a cor vermelha viva do lenho lembrava brasas. A palavra "pau-brasil" e tautologica: "pau" vem do latim palus (madeira) e "brasil" ja significa "vermelho como brasa". A madeira era usada para tingir tecidos de luxo na Europa, produzindo um vermelho carmesim que se tornou moda nos seculos XVI e XVII.

Hoje, C. echinata esta ameacada de extincao. Restam fragmentos pequenos de Mata Atlantica litoranea onde a especie ocorre naturalmente. A explotacao predatória durante seculos reduziu drasticamente as populacoes. E uma ironia amarga: a arvore que nomeia o pais e uma das mais ameacadas.

Ipe — a florada que para o pais

Os ipês (genero Handroanthus, familia Bignoniaceae) sao das arvores mais populares do Brasil, com boa razao. Na florada — que ocorre entre julho e setembro, quando as arvores perdem as folhas e ficam cobertas de flores — os ipês-amarelos, ipês-roxos e ipês-rosas transformam a paisagem urbana. Em cidades como Sao Paulo, a florada do ipê-amarelo e um evento cultural: o ipê-amarelo (Handroanthus chrysanthus, sin. Tabebuia chrysantha) foi declarado simbolo floral do municipio de Sao Paulo em 1997.

O ipê-amarelo-do-cerrado (Handroanthus ochraceus) e particularmente longevo, com exemplares estimados em mais de 500 anos. A madeira do ipê e extremamente densa e resistente — entre as mais duras do mundo — o que a torna valiosa para construcao naval, postes e dormentes. A explotacao madeireira reduziu populações naturais, mas a especie e amplamente cultivada em arborizacao urbana.

Pau-mulato e other ancestrais

Alem das especies simbolicas, o Brasil abriga arvores seculares em diversos biomas. Na Caatinga, o umbuzeiro (Spondias tuberosa) pode viver mais de 200 anos, e sua raiz tuberosa serve de reserva hidrica — fonte de agua e alimento para populações rurais. Na Amazonia, a castanheira (Bertholletia excelsa) atinge idades de 500 a 1.000 anos e pode produzir ate 300 frutos por estacao, cada um com 10 a 25 sementes.

Arvores como patrimonio

Arvores ancestrais sao patrimonio vivo. Elas armazenam seculos de informacao climatica nos aneis do tronco, servem de habitat para centenas de especies, estabilizam o solo, regulam o ciclo hidrico e carregam valor cultural imensuravel. Proteger essas arvores — e os fragmentos de floresta onde ainda sobrevivem — e preservar nao apenas uma especie, mas uma linha de tempo que conecta o presente a milenios de passado.

O Brasil tem leis de protecao a arvores notaveis (como o Decreto Municipal que protege arvores monumentais em varias cidades), mas a fiscalizacao e fraca e a pressao imobiliaria constante. Cada jequitiba centenario derrubado e uma biblioteca queimada sem leitura.