Canto Botânico
Nº 29 · Bioquímica

Terpenos — o mapa molecular dos aromas

A mesma classe de compostos que dá cheiro de pinho também está nos tricomas da cannabis — e na lavanda do seu sabonete.

Terpenos (ou terpenoides) são a maior classe de compostos orgânicos encontrados nas plantas — mais de 40.000 estruturas descritas. Eles são responsáveis pela imensa maioria dos aromas vegetais que percebemos: o cheiro fresco do limão, o amadeirado do cedro, o doce da lavanda, o picante da pimenta. E sim, também pelos terpenos da cannabis.

A estrutura básica

Todos os terpenos derivam de uma unidade fundamental: o isopreno (C5H8), uma molécula de cinco carbonos. A classificação segue o número de unidades de isopreno na molécula: monoterpenos (C10, 2 unidades), sesquiterpenos (C15, 3 unidades), diterpenos (C20, 4 unidades), triterpenos (C30, 6 unidades) e tetraterpenos (C40, 8 unidades).

A biossíntese começa na via do mevalonato (no citoplasma) ou na via do MEP (nos plastídios). Enzimas chamadas terpeno sintases catalisam as reações de ciclização e modificação que transformam precursores lineares nas estruturas complexas e variadas que conferem cada aroma específico.

Monoterpenos — os mais voláteis

Os monoterpenos são os responsáveis pelos aromas mais imediatos e "de cabeça". O limoneno (cheiro de limão e laranja) é um dos compostos orgânicos mais produzidos pela indústria química. O linalol (floral, encontrado em lavanda e cannabis) é sedativo em estudos de inalação em roedores. O pineno alfa e beta (cheiro de pinho) tem propriedades broncodilatadoras documentadas. O mirceno (terroso, presente em lúpulo e cannabis) potencia o efeito analgésico em modelos animais.

Sesquiterpenos — o coração do aroma

Com maior peso molecular, os sesquiterpenos evaporam mais lentamente e formam as "notas de coração" e "base" em perfumaria. O bisabolol (camomila) é anti-inflamatório. O cariofileno (especiaria, pimenta preta) é um agonista do receptor CB2 de canabinoides — o que o torna um dos únicos terpenos com interação farmacológica direta com o sistema endocanabinoide.

Terpenos e cannabis

A cannabis produz mais de 100 terpenos diferentes, sendo os mais abundantes o mirceno, limoneno, pineno, linalol, caryophyllene e terpinoleno. A hipótese do "entourage effect" sugere que terpenos modulam os efeitos dos canabinoides (THC e CBD), alterando a experiência subjetiva. Essa hipótese tem suporte em estudos farmacológicos parciais, mas a complexidade das interações dificulta conclusões definitivas.

Referências científicas

Wang, S. et al. (2026)

Unveiling the Fragrant Secrets of Dendrobium devonianum: Terpenoid Pathways and Floral Scent Dynamics. Metabolites. DOI: 10.3390/metabo16040276

Gershenzon, J. & Dudareva, N. (2007)

The function of terpene natural products in the natural world. Nature Chemical Biology, 3(7), 408-414. DOI: 10.1038/nchembio.2007.5

Booth, J.K. & Bohlmann, J. (2019)

Terpenes in Cannabis sativa — from biosynthesis to potential medical use. Trends in Plant Science, 24(7), 616-624. DOI: 10.1016/j.tplants.2019.04.009

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