Dos textos de Herodoto e Estrabao as gravuras renascentistas, os Jardins Suspensos da Babilonia sao descritos como uma obra-prima de engenharia hidraulica: terracos elevados com arvores, trepadeiras e canteiros, irrigados por um sistema de bombas e canais que elevava agua do Eufrates a dezenas de metros de altura. O problema e que, apesar de serem uma das sete maravilhas do mundo antigo, nao existe uma unica evidencia arqueologica direta de sua existencia em Babilonia. Nenhum escavacao identificou a infraestrutura hidraulica que sustentaria tal estrutura. E se os jardins nunca estiveram em Babilonia?
O silencio arqueologico
Babilonia foi extensamente escavada por arqueologos alemaes liderados por Robert Koldewey entre 1899 e 1917. As ruinas do palacio de Nabucodonosor II, dos zigurates e das muralhas foram documentadas com precisao. Mas nenhum vestigio dos jardins suspensos foi encontrado. As estruturas hidraulicas que Koldewey identificou como possivelmente relacionadas aos jardins (um poço com tres canos e um sistema de drenagem) foram reinterpretadas por arqueologos posteriores como armazenamento de agua padrao, sem relacao com jardins elevados.
Os textos cuneiformes babilonicos — que documentam em detalhe a construcao de templos, palacios e canais — nao mencionam jardins suspensos. Nabucodonosor II, suposto construtor, deixou extensas inscricoes celebrando suas obras, e nenhuma inclui jardins elevados. Esse silencio documental e, para muitos pesquisadores, o argumento mais forte contra a existencia dos jardins em Babilonia.
A hipotese de Dalley: Nínive, nao Babilonia
A assiriologista Stephanie Dalley, da Universidade de Oxford, publicou em 2013 uma hipotese que provocou debate intenso: os jardins suspensos nao estavam em Babilonia, mas em Nínive, capital do imperio assirio, construidos pelo rei Senaqueribe (704-681 a.C.), nao por Nabucodonosor II (Dalley, 2013, The Mystery of the Hanging Garden of Babylon, Oxford University Press).
Dalley baseia sua argumentacao em varios pontos. Primeiro, Senaquerib descreveu em suas inscricoes um aqueduto de mais de 80 km e um sistema de irrigacao que elevava agua ate o topo de seu palacio em Nínive — uma infraestrutura hidraulica muito mais consistente com jardins elevados do que qualquer coisa encontrada em Babilonia. Segundo, textos assirios mencionam jardins exuberantes e arvores transplantadas de territórios conquistados, algo que nao aparece nos textos babilonicos de Nabucodonosor (Foster, 2004, Iraq, "The hanging gardens of Nineveh").
Terceiro, a confusao geografica pode ter origem no uso do nome "Babilonia" como generico para cidades majestosas na Mesopotamia — uma pratica documentada em textos antigos, onde "Babilonia" era aplicado a outras cidades, incluindo Nínive (Dalley, 2005, "Babylon as a name for other cities including Nineveh," Proceedings of the 51st Rencontre Assyriologique Internationale).
A questao botanica
Independentemente da localizacao exata, a viabilidade botanica dos jardins e um problema interessante. Plantas em terracos elevados precisariam de irrigacao constante no clima arido da Mesopotamia. O sistema de parafuso de Arquimedes, frequentemente citado como solucao, provavelmente nao estava disponivel no seculo VII a.C. — embora Dalley e Simms (2009, Technology and Culture) tenham argumentado que o parafuso hidraulico pode ter sido inventado por Sennacherib, nao por Arquimedes, com base em evidencias em baixos-relevos assirios.
Do ponto de vista da arqueobotanica, a presenca de especies como cipreste, tamareira, videira e rosas nos jardins descritos e plausivel — essas plantas eram cultivadas na Mesopotamia desde o terceiro milenio a.C. O que e mais complexo e a logistica de transplantar arvores adultas e mantê-las vivas em estruturas elevadas com irrigacao artificial. Experimentos modernos com tecnicas de jardinagem em telhados sugerem que seria tecnicamente viavel, mas exigiria mao de obra e recursos consideraveis.
Uma maravilha sem local
O consenso parcial na arqueologia contemporanea e que jardins suspensos provavelmente existiram — nao como um unico monumento em Babilonia, mas como uma tradicao mesopotamica de jardins elevados e irrigados em varios locais. A atribuicao a Babilonia especificamente pode ser resultado de confusao textual entre fontes grecas que, seculos apos os fatos, associaram todas as maravilhas da Mesopotamia a cidade mais famosa da regiao.
A ausencia de evidencia nao e evidencia de ausencia, mas o peso do silencio arqueologico e documental em Babilonia e dificil de ignorar. A hipotese de Dalley — Nínive como local real — e a mais consistente com as evidencias disponiveis, mas ate que escavacoes em Nínive (atualmente em território iraquiano, com acesso limitado) possam confirmar a infraestrutura hidraulica, a questao permanece aberta.
O que os jardins suspensos nos ensinam, ironicamente, e sobre a fragilidade do registro historico. Uma das estruturas mais celebradas da antiguidade pode ser, ao mesmo tempo, a mais mal documentada. A botanica, a engenharia hidraulica e a filologia continuam trabalhando juntas para resolver um dos mais antigos misterios do mundo.