Canto Botânico
No 04 · Ecologia

Comunicacao subterranea

Micorrizas, redes fungicas e a troca de recursos entre plantas.

Abaixo da superficie do solo, existe uma rede de comunicacao tao complexa quanto qualquer sistema de internet. Essa rede, frequentemente chamada de "wood wide web", e formada por fungos micorrizicos que conectam raizes de plantas diferentes, criando vias para transferencia de carbono, nutrientes, agua e sinais quimicos. O conceito e relativamente recente na ecologia e permanece rodeado de hype que precisa ser separado da evidencia solida.

A base dessa rede sao as micorrizas -- associacoes simbioticas entre fungos e raizes de plantas. Existem varios tipos, mas as mais relevantes para a comunicacao inter-planta sao as micorrizas arbusculares (AM) e as ectomicorrizas (ECM). As AM dominam em gramíneas, herbáceas e muitas arvores tropicais, enquanto as ECM predominam em florestas temperadas de coniferas e Fagaceae.

A rede comum micorrizica

O conceito central e o de common mycorrhizal network (CMN) -- uma rede compartilhada de hifas fungicas que conecta dois ou mais individuos vegetais simultaneamente. A hipotese foi proposta inicialmente por David Read na decada de 1980 e ganhou forca com experimentos usando CO2 marcado com carbono-14 e dual-chamber systems que separavam fisicamente plantas enquanto permitiam conexao via hifas.

O experimento seminal de Simard et al. (1997) demonstrou que carbono fotoassimilado era transferido de Betula papyrifera (vidoeiro) para Pseudotsuga menziesii (Douglas-fir) via rede ectomicorrizica compartilhada, preferencialmente na direcao de plantas com sombreamento parcial. Essa transferencia ocorria sobretudo quando a planta receptora estava estressada por baixa luminosidade, sugerindo que o fluxo de carbono era regulado por demanda, nao apenas por difusao passiva.

Estudos posteriores com isótopos estaveis confirmaram que a transferencia de carbono via CMN nao e trivial. Em florestas temperadas, entre 5 e 15% do carbono assimilado por arvores adultas pode ser transferido para mudas conspecificas conectadas pela rede. Essa transferencia funciona como um subsidio para o estabelecimento de jovens no sub-bosque sombreado.

Sinais de alerta e defesa

Uma das aplicacoes mais debatidas da rede micorrizica e a transmissao de sinais de defesa. Experimentos com Arabidopsis thaliana, Phaseolus vulgaris (feijao) e Vicia faba (fava) demonstraram que plantas infestadas por herbívoros ou patogenos podiam induzir respostas defensivas em plantas vizinhas conectadas pela rede micorrizica, mas nao em plantas desconectadas.

Os sinais envolvidos parecem ser compostos volateis organicos (VOCs) transportados pelo solo ou, possivelmente, sinais eletricos transmitidos ao longo das hifas. Porem, a velocidade e a especificidade dessa comunicacao permanecem controversas. Alguns estudos nao conseguiram replicar os resultados, e a magnitude do efeito e frequentemente pequena comparada a transmissao aerea de VOCs.

Um ponto crucial: a rede micorrizica nao e uma infraestrutura altruista. O fungo e um simbionte com seus proprios interesses. A transferencia de recursos via CMN pode beneficiar o fungo tanto quanto a planta receptora -- mantendo plantas vivas garante suprimento continuo de carboidratos. O mutualismo, nesse contexto, e mais pragmatico que generoso.

Limites do conceito

E necessario cautela com a extrapolacao do conceito. A ideia de que as plantas "falam" entre si via rede fungica tornou-se popular, mas a evidencia cientifica e mais sutil. Muitas das interacoes documentadas ocorrem em condicoes de laboratorio com alta densidade de conexoes, que podem nao refletir a complexidade do solo natural. Alem disso, a maioria dos experimentos usa plantas em vasos pequenos, onde a rede e relativamente concentrada.

A CMN e real, mensuravel e ecologicamente relevante. O que precisa ser evitado e a personificacao -- plantas nao sao agentes intencionais, e a rede nao e uma internet consciente. E um sistema de troca de recursos moldado por 450 milhoes de anos de coevolucao entre plantas e fungos, com benefícios mutuos e conflitos de interesse que ainda estamos decifrando.

Referências

Simard SW, Perry DA, Jones MD, Myrold DD, Durall DM, Molina R (1997)

Net transfer of carbon between ectomycorrhizal tree species in the field. Nature, 388:579-582. DOI: 10.1038/41557

Babikova Z, Gilbert L, Bruce TJA, Dewhirst OP, Pickett JA, Johnson D (2013)

Underground signals carried through common mycelial networks warn neighbouring plants of aphid attack. Ecology Letters, 16(7):835-843. DOI: 10.1111/ele.12115

Klein JT, Paszkowski U (2013)

Communication between plants: common mycorrhizal networks. Current Biology, 23(22):R981-R983. DOI: 10.1016/j.cub.2013.10.001

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