Sob seus pes, a cada passo que da num jardim, numa floresta ou num canteiro, ha uma rede invisivel de filamentos fúngicos conectando as raizes das plantas entre si. Essa rede — a micorriza — e tao onipresente e antiga que a maioria dos botanicos considera que as plantas terrestres nao teriam colonizado a terra firme sem ela. Fungos e plantas nao sao aliados por acaso: sao parceiros evolutivos com 450 milhoes de anos de coevolucao.

O que sao micorrizas

Micorriza — literalmente "raiz fungosa," do grego mykes (fungo) e rhiza (raiz) — e uma associacao simbiotica entre fungos e raizes de plantas. Existem varios tipos, mas os mais importantes sao as micorrizas arbusculares (AM, na sigla em ingles), formadas por fungos do filo Glomeromycota, que se associam a 80-90% das especies de plantas terrestres. Nas AM, as hifas do fungo penetram nas celulas da raiz e formam estruturas ramificadas chamadas arbúsculos — que sao o sitio principal de troca de nutrientes.

A revisao de Parniske em Nature Reviews Microbiology (2008, PMID: 18794914) estabeleceu as micorrizas arbusculares como "a mae de todas as endossimbioses radiculares" — sugerindo que a maquinaria genetica que permite a simbiose com fungos micorrízicos foi cooptada ao longo da evolucao para permitir outras simbioses, como a com bacterias fixadoras de nitrogenio das leguminosas.

"As plantas terrestres nao teriam colonizado a terra firme sem fungos. Sao parceiros com 450 milhoes de anos de coevolucao."

A troca — nutrientes por carboidratos

A micorriza e uma transacao mutua. A planta fornece ao fungo carboidratos (geralmente 10-20% da fotossintese total), produzidos via fotossintese. O fungo, em troca, fornece a planta nutrientes minerais — especialmente fosforo e nitrogenio — que captura do solo com suas hifas, que sao muito mais finas e extensas que as raizes da planta e podem acessar poros do solo que as raizes nao alcançam.

Alem de nutrientes, os fungos micorrízicos protegem as plantas contra estresses: seca, metais pesados, patogenos do solo e salinidade. A revisao de Kamel e colaboradores em New Phytologist (2017, PMID: 27780291) detalhou como a biologia e a evolucao da simbiose micorrízica sao esclarecidas pela genomica: plantas e fungos trocam sinais quimicos (estrigoactonas da planta, lipocitoquininas do fungo) que regulam a formacao e manutencao da simbiose.

450 milhoes de anos — a idade da alianca

A simbiose micorrízica e antiga. Fossil de Aglaophyton major, uma das primeiras plantas terrestres conhecidas (Devoniano, ha 400 milhoes de anos), ja apresenta evidencias de colonização fúngica de suas rizoides — estruturas precursoras das raizes. A revisao de Delaux e colaboradores em Philosophical Transactions of the Royal Society B (2024, PMID: 39343030) aponta que a simbiose micorrízica evoluiu ha 450 milhoes de anos, praticamente simultaneamente com a conquista da terra firme pelas plantas.

A hipotese predominante e que os fungos ja estavam presentes nos solos antes das plantas (como decompositores de materia organica aquatico que se acumulava nas margens) e que as primeiras plantas terrestres, que nao tinham raizes verdadeiras, se beneficiaram dessa associacao. A co-dependencia se aprofundou ao longo da evolucao: plantas que mantinham a simbiose tinham vantagem competitiva sobre as que nao a mantinham.

A wood wide web

Alem da simbiose direta com a planta hospedeira, as hifas dos fungos micorrízicos frequentemente conectam plantas vizinhas, formando uma rede compartilhada — apelidada de "wood wide web" por Suzanne Simard e colaboradores. Essa rede permite a transferencia de carbono, nutrientes e possivelmente sinais quimicos entre plantas. Estudos mostraram que arvores adultas podem transferir carbono para mudas na sombra, e que plantas sob ataque podem enviar sinais de alerta via rede fúngica para vizinhas.

A revisao de Vigneron e colaboradores em Current Opinion in Plant Biology (2018, PMID: 29510317) analisou o que se aprendeu com o estudo da evolucao da simbiose micorrízica, incluindo como algumas linhagens de plantas perderam a capacidade de formar micorrizas (como as Brassicaceae — familia da mostarda, couve e brócolis) e como desenvolveram mecanismos compensatórios.

Micorrizas ectomicorrízicas — a alianca das florestas temperadas

Alem das arbusculares (que dominam nos tropicos e pastagens), existem as micorrizas ectomicorrízicas (ECM), formadas principalmente por fungos basidiomicetos e ascomicetos com arvores de florestas temperadas e boreais (pinheiros, carvalhos, faias, eucaliptos). Nas ECM, o fungo nao penetra nas celulas da raiz — envolve-a externamente formando um manto e uma rede de hifas entre as celulas (rede de Hartig). Cerca de 2% das especies de plantas formam ECM, mas essas especies dominam grande parte das florestas do planeta.

Os cogumelos visiveis que voce ve no chao da floresta — Amanita, Boletus, Russula, Lactarius — sao frequentemente os corpos frutíferos de fungos ectomicorrízicos. Quando voce ve um boleto ao pe de um pinheiro, esta olhando para a ponta visivel de uma rede fúngica que se estende por metros sob o solo, conectando dezenas de arvores.

Para o cultivador

Micorrizas sao relevantes para qualquer pessoa que cultiva plantas. Solos perturbados, encharcados ou tratados com fertilizantes quimicos em excesso tendem a ter comunidades fúngicas reduzidas. Practicas como adicao de compost organico, minimizacao de revolvimento do solo e uso de inoculantes micorrízicos podem favorecer a simbiose. A maioria das plantas ornamentais e hortaliças se beneficia de micorrizas arbusculares, e muitas arvores e arbustos dependem de micorrizas ectomicorrízicas.

A licao central: a planta isolada nao existe. Toda raiz saudavel e um ecossistema — e a parte visivel da planta e apenas a ponta de uma aliança subterrânea que comecou antes dos dinossauros.