Canto Botânico
Nº 38 · Etnobotânica

A arruda e as avós — folclore e química

Defumação de arruda contra mau-olhado, banho de arruda para descarrego — a ciência por trás da planta mais supersticiosa do Brasil.

Ruta graveolens, a arruda, é uma herbácea perene da família Rutaceae — a mesma do limão e da laranja. Originária do Mediterrâneo, foi trazida ao Brasil pelos colonizadores portugueses e se integrou de tal forma à cultura popular que é difícil encontrar um quintal de avó sem um pé de arruda.

Para que é usada no folclore

Na simpatia popular brasileira, a arruda serve para quase tudo: espantar mau-olhado, quebrar inveja, proteger a casa, limpar o corpo de "energias negativas". Defumações com arruda, alecrim e guiné são rituais consolidados em terreiros de candomblé, umbanda e em práticas sincréticas católicas. A planta é associada a São Brás (protetor da garganta) e faz parte da simpatia de Ano Novo em várias regiões.

O que a ciência diz

A arruda produz uma série de compostos químicos reais com propriedades biológicas documentadas. Os principais são as furanocumarinas (psoraleno, bergapteno) e os alcaloides quinolínicos (rutina, quercetina, arborinina). As furanocumarinas são fotossensibilizadoras: ao entrar em contato com a pele e ser exposta à luz UV, podem causar fitofotodermatite — queimaduras e bolhas. Esse efeito é bem documentado e é a razão pela qual o manuseio de arruda requer cuidado.

Quanto à queima (defumação), os compostos voláteis liberados incluem 2-undecanona e outros cetona que apresentam atividade inseticida em estudos laboratoriais. O efeito repelente de insetos é o mais bem estabelecido cientificamente entre os usos populares da arruda — o que pode explicar, em parte, a associação histórica com "limpeza" e "proteção".

A rutina, um glicosídeo flavonoide encontrado na arruda, tem propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias documentadas in vitro, mas não há evidências de eficácia clínica nos contextos de uso popular.

Riscos

O uso interno de arruda é perigoso. Estudos de caso documentam hepatotoxicidade, nefrotoxicidade e atividade abortiva em animais de laboratório. A arborinina mostrou efeito mutagênico em ensaios de Ames. O óleo essencial de arruda é neurotóxico em doses elevadas. Essa planta é um caso claro onde o uso externo (com precauções) tem alguma base química, mas o uso interno é inseguro.

Referências científicas

Diwan, F.H. et al. (2013)

Pharmacological and toxicological properties of Ruta graveolens L. Journal of Pharmacy & Bioallied Sciences, 5(2), 114-118. DOI: 10.4103/0975-7406.111837

Al-Said, M.S. et al. (2010)

Phytochemical and biological studies of Ruta graveolens. International Journal of Pharmacology, 6(5), 548-556.

Urabani, R.A. et al. (2021)

Etnobotanical uses of Ruta graveolens in folk medicine: a review. Ethnobotany Research and Applications, 22, 1-15.

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